A Escola Nascida das Cinzas da Guerra: Como Mulheres Italianas Criaram uma das Pedagogias mais Inovadoras do Mundo.

Descubra como mulheres italianas reconstruíram uma cidade destruída pela guerra criando a abordagem Reggio Emilia — uma das pedagogias mais inovadoras da educação infantil. Conheça a história completa.

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Uma Escola Construída com os Destroços da Guerra

Era abril de 1945. A Segunda Guerra Mundial chegava ao fim na Europa, mas em Reggio Emilia, uma pequena cidade no norte da Itália, o verdadeiro trabalho estava apenas começando. Entre ruínas, pobreza e luto coletivo, um grupo de mulheres tomou uma decisão que mudaria a história da educação infantil para sempre: construir uma escola para seus filhos com os próprios recursos que a guerra havia deixado para trás.

Não havia arquitetos, pedagogos ou financiamento governamental. Havia determinação, visão coletiva e uma certeza que nenhuma guerra conseguiu destruir — a de que uma sociedade mais justa começa pela forma como se educa as crianças.

O que nasceu dali, primeiro na pequena vila de Villa Cella e depois em toda a cidade de Reggio Emilia, é hoje reconhecido como uma das abordagens pedagógicas mais respeitadas do mundo. A abordagem Reggio Emilia influencia escolas em mais de 50 países e segue sendo referência obrigatória em cursos de pedagogia, educação infantil e formação docente em todo o planeta.

Mas poucos conhecem a história real por trás dessa revolução pedagógica. E essa história merece ser contada desde o princípio.

O Contexto Histórico — Uma Cidade, uma Guerra e uma Decisão

Reggio Emilia no Pós-Guerra

Reggio Emilia é uma cidade da região da Emília-Romanha, no norte da Itália. Em 1945, como grande parte da Europa, ela emergia de um dos períodos mais devastadores da história moderna. Casas destruídas, famílias partidas, economia em colapso. Homens mortos na guerra ou nos campos de concentração. Mulheres sozinhas, com filhos pequenos e a tarefa impossível de recomeçar do zero.

Mas Reggio Emilia carregava algo que a diferenciava de muitas outras cidades destruídas pela guerra: uma tradição política forte de esquerda e uma cultura profundamente comunitária. As pessoas estavam acostumadas a agir coletivamente, a entender que os problemas individuais têm soluções coletivas. Essa cultura não foi destruída pelas bombas. Pelo contrário, saiu do conflito ainda mais enraizada.

A Venda do Tanque de Guerra

A história que fundou a abordagem Reggio Emilia começa com um ato ao mesmo tempo prático e profundamente simbólico. As mulheres de Villa Cella, uma vila nos arredores de Reggio Emilia, decidiram que precisavam construir uma escola para seus filhos. Mas não tinham dinheiro.

A solução foi encontrada nos próprios destroços da guerra espalhados pela região: um tanque alemão abandonado, alguns cavalos e caminhões deixados para trás pelo exército em retirada. Venderam tudo. Com o dinheiro, compraram materiais de construção. Com as próprias mãos, ergueram o prédio.

Pense nessa cena por um momento. Mulheres que haviam perdido maridos, irmãos e filhos numa guerra absurda pegaram os instrumentos dessa mesma guerra e os transformaram em escola. Não é metáfora. É exatamente o que aconteceu. E talvez seja por isso que essa história ainda nos move tanto — porque ela transforma o símbolo mais brutal da destruição humana em algo que cuida e protege a vida.

A Visão Política por Trás da Escola

É fundamental entender que essa escola não era apenas um espaço de cuidado infantil. Era um ato político, consciente e deliberado. As mulheres de Villa Cella acreditavam, com razão, que a guerra havia sido possível porque gerações inteiras foram educadas para obedecer sem questionar, para seguir sem pensar, para aceitar sem resistir.

A escola que queriam construir seria o oposto disso. Um lugar onde as crianças fossem respeitadas como seres pensantes desde o primeiro dia de vida. Onde a curiosidade fosse celebrada, não podada. Onde a democracia não fosse apenas um conceito ensinado nos livros, mas uma prática cotidiana vivida desde a infância.

Essa visão profundamente política e humanista é a espinha dorsal da abordagem Reggio Emilia. É o que explica por que ela é tão diferente de qualquer modelo pedagógico criado em gabinetes acadêmicos distantes da vida real.

Loris Malaguzzi — O Homem que Foi de Bicicleta e Mudou a Educação

O Encontro que Mudou Tudo

Loris Malaguzzi tinha 25 anos e era professor de ensino fundamental quando um amigo lhe contou sobre a escola que as mulheres de Villa Cella estavam construindo. Curioso e inquieto como sempre foi ao longo da vida, pegou sua bicicleta e foi até lá.

O que ele encontrou naquelas mulheres — a determinação absoluta, a crença inabalável na criança, a recusa em aceitar uma educação que reproduzisse as condições que haviam levado à guerra — correspondeu exatamente ao que ele já carregava dentro de si mas ainda não sabia nomear completamente. Malaguzzi ficou. E nunca mais saiu.

Quem Era Loris Malaguzzi

Nascido em 1920 em Correggio, Itália, Loris Malaguzzi era um homem difícil de encaixar em uma única definição. Era educador, psicólogo, poeta, jornalista e agitador cultural — tudo ao mesmo tempo, e com uma energia que as pessoas que o conheceram descrevem como contagiante e às vezes avassaladora. Estudou psicologia em Roma, onde teve contato com as ideias de Vygotsky, Piaget, Dewey e Bruner, pensadores que influenciariam profundamente sua compreensão sobre como as crianças aprendem.

Mas Malaguzzi nunca foi um aplicador fiel de teorias. Ele as usava como ferramentas para pensar, não como receitas a seguir cegamente. O que construiu em Reggio Emilia foi sempre resultado de uma tensão criativa e fértil entre teoria e prática, entre o que os livros diziam e o que as crianças mostravam na vida real todos os dias.

O Poema das Cem Linguagens

Uma das contribuições mais conhecidas e mais citadas de Malaguzzi é o poema “Ao contrário, as cem existem”, mais conhecido simplesmente como o poema das cem linguagens. Nele, Malaguzzi responde com indignação poética à ideia de que a escola e a sociedade insistem em roubar da criança noventa e nove das suas cem linguagens — cem formas de pensar, sentir, brincar, falar e compreender o mundo — deixando apenas a linguagem da razão fria e da obediência.

O poema não é apenas literatura. É um manifesto pedagógico. É a síntese mais honesta de tudo que Malaguzzi acreditava sobre a criança e a educação. E continua sendo, décadas depois de sua morte em 1994, o texto mais citado em formações sobre a abordagem Reggio Emilia em todo o mundo — porque fala de algo que qualquer educador que já olhou de verdade para uma criança já sentiu, mas talvez nunca tenha conseguido colocar em palavras com tanta precisão.

A Construção de um Sistema Pedagógico — De Villa Cella às Escolas Municipais

Da Iniciativa Comunitária à Gestão Pública

Durante quase duas décadas, as escolas de Reggio Emilia foram geridas pelas próprias comunidades. As famílias eram parte ativa da vida escolar, não apenas como colaboradoras voluntárias, mas como co-autoras legítimas do projeto pedagógico. Reuniões, decisões coletivas, participação no cotidiano — essa estrutura participativa era, em si mesma, uma prática democrática acontecendo todos os dias.

Em 1963, a prefeitura de Reggio Emilia assumiu a gestão da primeira escola infantil pública. Foi um passo importante e necessário, mas também um momento de risco: como transformar uma iniciativa comunitária viva e orgânica em política pública sem engessá-la, sem burocratizá-la, sem matar o que havia de mais vivo nela?

Sob a liderança de Malaguzzi, essa transição foi feita com cuidado e atenção. As famílias continuaram sendo parte ativa. A gestão municipal não significou padronização pedagógica. O sistema cresceu mantendo a alma que o havia originado.

Os Princípios Fundamentais que Emergiram da Prática

Ao longo dos anos 1960 e 1970, enquanto as escolas se consolidavam, Malaguzzi e sua equipe foram sistematizando os princípios que emergiam da prática cotidiana. É importante dizer que não foram princípios criados em gabinetes e depois testados nas escolas. Foram observações cuidadosas, atentas e humildes do que realmente acontecia quando as crianças eram genuinamente respeitadas.

Dali surgiram conceitos que hoje são conhecidos no mundo inteiro: a imagem da criança como ser competente e protagonista de seu próprio aprendizado, o ambiente como terceiro educador ao lado da família e do professor, a documentação pedagógica como ferramenta de escuta e reflexão, a progettazione como planejamento emergente que nasce dos interesses reais das crianças, e o atelier como espaço de investigação e expressão artística integrado à rotina escolar. Cada um desses conceitos carrega, em sua origem, a marca das mulheres de Villa Cella: a crença de que as crianças merecem o melhor que somos capazes de oferecer.

A Expansão Internacional — Como o Mundo Descobriu Reggio Emilia

1991 — O Ano que Mudou Tudo

Durante décadas, a experiência de Reggio Emilia foi relativamente desconhecida fora da Itália. Educadores europeus e americanos faziam visitas esporádicas, mas a abordagem não havia ganhado projeção global. Era, de certa forma, um tesouro guardado numa cidade do norte da Itália.

Isso mudou de forma dramática em 1991, quando a revista americana Newsweek elegeu a escola Diana, em Reggio Emilia, como a melhor escola de educação infantil do mundo. O impacto foi imediato. Educadores dos Estados Unidos, do Japão, da Austrália e de dezenas de outros países passaram a buscar, com urgência, informações sobre o que estava acontecendo nessa cidade italiana que poucos conheciam.

O Papel do Livro “As Cem Linguagens da Criança”

Grande parte da expansão de Reggio Emilia no mundo anglófono se deve ao trabalho generoso e rigoroso de três pesquisadores americanos: Carolyn Edwards, Lella Gandini e George Forman. Juntos, organizaram o livro “As Cem Linguagens da Criança”, que se tornou a principal porta de entrada para educadores de língua inglesa e, mais tarde, para muitos brasileiros.

Lella Gandini, em particular, foi uma ponte humana fundamental entre a Itália e os Estados Unidos. Italiana de nascimento e radicada nos EUA, ela passou décadas documentando e divulgando a experiência de Reggio Emilia com rigor acadêmico e profundo respeito pela integridade da abordagem, resistindo sempre às simplificações fáceis.

O Reggio Children e a Institucionalização da Abordagem

Para dar conta da crescente demanda internacional, foi criado em 1994, mesmo ano da morte de Malaguzzi, o Reggio Children — uma organização que passou a coordenar visitas de estudo, publicações, exposições itinerantes e formações internacionais. A exposição “As Cem Linguagens da Criança” percorreu dezenas de países e apresentou a abordagem a milhões de pessoas que nunca haviam ouvido falar de uma pequena cidade italiana chamada Reggio Emilia.

Reggio Emilia no Brasil — Uma História de Contradições e Possibilidades

Como a Abordagem Chegou ao País

No Brasil, a chegada de Reggio Emilia se deu principalmente por duas vias bem diferentes entre si. A primeira foi a acadêmica, por meio de pesquisadoras como Ana Lúcia Goulart de Faria, da Unicamp, que produziram dissertações e artigos críticos sobre a experiência italiana com seriedade e olhar político aguçado. A segunda foi a das escolas particulares de alto padrão, que passaram a se inspirar na abordagem como diferencial pedagógico e, muitas vezes, como argumento de marketing.

Essa dupla entrada criou uma tensão que persiste até hoje e que vale a pena nomear com honestidade. De um lado, uma leitura crítica e politicamente comprometida, atenta às origens comunitárias e democráticas da abordagem. De outro, uma apropriação predominantemente estética, que destaca os ambientes bonitos, os ateliers cuidadosamente montados e as documentações elaboradas, mas frequentemente ignora o projeto político que está na base de tudo.

A Contradição que Não Podemos Ignorar

Há uma ironia profunda e um tanto dolorosa na trajetória de Reggio Emilia no Brasil. Uma abordagem nascida do esforço coletivo de mulheres trabalhadoras pobres, que queriam uma escola pública digna para seus filhos, tornou-se no país quase que exclusivamente um símbolo de educação de elite.

Isso não significa que a abordagem seja incompatível com a escola pública brasileira. Significa que sua apropriação foi seletiva e conveniente: ficou com a estética e descartou a política. Educadores que buscam a essência de Reggio Emilia — e não apenas sua aparência — encontram ali muito mais afinidade com os princípios de Paulo Freire do que com o marketing das escolas bilíngues de mensalidade elevada.

Por que a Abordagem Reggio Emilia Continua Relevante?

Num mundo que exige cada vez mais criatividade, pensamento crítico, colaboração e capacidade de lidar com problemas complexos, a abordagem Reggio Emilia oferece respostas concretas que muitos modelos educacionais tradicionais simplesmente não conseguem dar. Não porque seja uma fórmula mágica, mas porque parte de um ponto completamente diferente.

Ela não pergunta como transmitir conteúdo de forma mais eficiente. Ela pergunta quem é essa criança que está à sua frente. E o que ela precisa para florescer. Quando essa pergunta é feita com genuinidade, toda a prática pedagógica se transforma de dentro para fora.

A lição mais profunda de Reggio Emilia não está nos ateliers sofisticados nem nas documentações elaboradas. Está na história de origem: mulheres sem recursos, num país destruído pela guerra, decidiram que seus filhos mereciam uma escola digna e foram construí-la com as próprias mãos. Sem esperar autorização. Sem esperar condições ideais. Com o que tinham e com o que acreditavam.

Essa combinação de crença na criança, ação coletiva e recusa ao conformismo é o coração da abordagem. E é algo que qualquer educador, em qualquer contexto, pode cultivar — independentemente do tamanho do atelier ou do orçamento da escola.

Vídeos para Aprofundar o Tema

Perguntas Frequentes sobre a Origem da Abordagem Reggio Emilia

Quando surgiu a abordagem Reggio Emilia? A abordagem surgiu em abril de 1945, imediatamente após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando mulheres da vila de Villa Cella construíram uma escola com recursos obtidos da venda de um tanque de guerra e outros equipamentos militares abandonados na região.

Quem foi Loris Malaguzzi? Foi o educador e psicólogo italiano que se tornou o grande articulador pedagógico da experiência de Reggio Emilia. Nascido em 1920, conheceu a escola de Villa Cella em 1945 e dedicou toda sua vida a desenvolver e aprofundar os princípios da abordagem. Faleceu em 1994, no mesmo ano em que foi criado o Reggio Children.

Reggio Emilia é um método pedagógico? Não, e os próprios criadores rejeitam com firmeza esse termo. Reggio Emilia é uma abordagem — uma filosofia educacional baseada em valores e princípios, não em procedimentos fixos a serem aplicados mecanicamente em qualquer contexto.

Como a abordagem Reggio Emilia chegou ao Brasil? Chegou principalmente pela via acadêmica, por meio de pesquisadoras universitárias que estudaram a experiência italiana, e pelas escolas particulares de alto padrão que passaram a se inspirar na abordagem a partir dos anos 1990 e 2000.

O que é o Reggio Children? É uma organização criada em 1994 para coordenar a difusão internacional da experiência de Reggio Emilia, responsável por publicações, exposições itinerantes, formações e visitas de estudo às escolas originais na Itália.

O que significa “as cem linguagens da criança”? A expressão criada por Malaguzzi refere-se às múltiplas formas pelas quais a criança pensa, expressa e compreende o mundo — pela fala, pelo desenho, pela música, pela dança, pela construção, pelo jogo simbólico, entre muitas outras. A abordagem defende que todas essas linguagens devem ser valorizadas e cultivadas, não suprimidas em nome de uma única forma de aprender considerada legítima.

É possível aplicar Reggio Emilia na escola pública brasileira? Sim, e talvez seja justamente lá que seus princípios fazem mais sentido. Os princípios da abordagem são plenamente compatíveis com a educação pública. O principal desafio está na formação docente e na cultura institucional, não nos recursos materiais. Muitas escolas públicas brasileiras já desenvolvem práticas inspiradas em Reggio Emilia com resultados significativos e transformadores.

O que Villa Cella tem a Dizer para Nós Hoje

A história de Reggio Emilia é, antes de tudo, uma história sobre o que as pessoas são capazes de fazer quando acreditam genuinamente que algo diferente é possível. Mulheres sem recursos, num país arrasado pela guerra, decidiram que a educação seria o alicerce de um mundo melhor — e foram construir esse alicerce com as próprias mãos, sem pedir licença.

Décadas depois, essa decisão continua ressoando em salas de aula de todos os continentes. Não porque Reggio Emilia tenha a solução para todos os problemas da educação, mas porque ela faz uma pergunta que nunca deveria parar de ser feita: o que você acredita sobre a criança que está diante de você?

A resposta a essa pergunta muda tudo.

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